As crianças não fazem birras… elas tem sentimentos

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As crianças não fazem birras… elas tem sentimentos. Por que nós colocamos isso na categoria de “birra“? Isso parece terrivelmente limitador e depreciativo. Inclusive, o termo “birrenta” é usado como um insulto ou uma palavra depreciativa.

Em que circunstâncias descrevemos os sentimentos de um adulto como uma “birra”? As únicas vezes que posso pensar que chamamos “birra” aos sentimentos de um adulto são de um modo irônico, comparando-o a uma criança. Isso diz muito sobre como pensamos acerca dos sentimentos das crianças.

A percepção comum é de que os sentimentos das crianças são triviais, menos importantes que os dos adultos, inclusive divertidos, às vezes. Isso é tão pouco respeitoso.

Os sentimentos de uma criança são válidos. Nós, seres humanos, temos sentimentos e emoções, e isso está bem. As crianças são seres humanos também!

Tirar importância ou ignorar suas emoções para nossa própria comodidade e conveniência é prejudicial e pouco respeitoso.

As crianças merecem que seus sentimentos e emoções sejam tratados com a mesma preocupação com as que tratamos as de um adulto, apesar de suas limitadas habilidades de enfrentamento ou capacidade para controlar seu comportamento.

Nosso trabalho como pais é ajudar nossos filhos a aprender a administrar suas emoções, entretanto isso não podemos fazê-lo de maneira efetiva se estamos etiquetando alguns dos sentimentos como “birras” menos importantes e só atendendo aos que consideramos autênticos.

E se nem sequer estamos dispostos a escutar os sentimentos de uma criança, como esperamos entender o motivo que há por trás deles?

Todos os sentimentos tem uma razão. “Na raiz de cada birra e luta de poder se encontram necessidades não satisfeitas.“, Marshall Rosenberg.

As emoções não aparecem de repente, sem motivo, embora às vezes possa parecer dessa maneira. Todos os sentimentos e emoções tem uma razão, e uma vez que nos damos conta dessa verdade, podemos seguir com a tarefa de descobrir que necessidades não satisfeitas podem estar em jogo.

Cada vez que lhe mostrar compreensão, empatia e um compromisso de ajudar a criança com seus sentimentos e necessidades, você se aproximará mais dela. Apoiar uma criança dessa maneira, quando está fora de si, é uma oportunidade para a conexão.

Etiquetar os sentimentos como uma “birra” muda o foco para uma direção equivocada. Quando rotulamos um monte de sentimentos como uma “birra”, mudamos totalmente nosso enfoque. Porque deixamos de escutar e ver a raiva, a dor, a decepção, os ciúmes, a tristeza, a frustração, o medo, a preocupação, a indignação, a vergonha, o desgosto, o mal-estar, o esgotamento, o desamparo, a solidão e centenas de outros sentimentos.

Percebe quanto limita nossa capacidade de entender e de empatizar?

Quando vemos tudo isso como uma “birra”, agora, no lugar de nos concentrarmos em escutar os sentimentos de nosso filho e suas necessidades não satisfeitas, o que nos preocupa é deter a “birra”.

A ideia de que haveria uma chave única para tratar com os sentimentos de uma criança sem ter em conta sua personalidade, circunstâncias, idade, capacidade, preferências, necessidades, pensamentos ou qualquer outra coisa, é bastante nefasto.

Poderia imaginar existir uma técnica que pudesse utilizar cada vez que seu companheiro se chateou, sem se importar com as circunstâncias ou razões? Isso seria absurdo e pouco respeitoso. As emoções das crianças devem ser tratadas com a mesma consideração.

Mas, o que ocorre com a “manipulação”?

Frequentemente, escuto que há dois tipos de “birras”. O tipo no qual a criança está legitimamente chateada (esta é compreendida) e o tipo em que o filho está tratando de manipular os pais (esta é ignorada).

Pessoalmente, acredito que é um negócio muito arriscado entrar no hábito de julgar se as emoções de outra pessoa são válidas e merecem sua empatia ou não. Eu advogaria por reconfortar uma criança quando ela necessite, por qualquer razão.

A pessoa MAIS ADEQUADA para julgar se necessitam consolo ou não é, obviamente, a pessoa que o solicita. As crianças não são, inerentemente, manipuladores, nem se aproveitam de nós. E, se por algum motivo o são, o que os terá levado a usar essa estratégia desesperada para ganhar atenção e amor?

Certamente estão legitimamente necessitados de conexão, se chegaram a acreditar que a única maneira em que são capazes de obtê-la é através da manipulação.

“Então, se deve satisfazer a necessidade quando se suspeita de manipulação? Sim. sempre. Se deseja nutrir a confiança dentro de sua relação com seu filho.”, Jitterberry.

No lugar de tratar uma “birra” ou qualquer situação, sejamos empáticos com os sentimentos e necessidades das crianças. Somente assim, talvez nossos filhos se sentiriam escutados e não julgados. Talvez poderíamos dar às crianças exatamente o que estão pedindo. E, talvez, chegaríamos a uma maior conexão compreensão, respeito e confiança entre nós.

Podemos fazer isso hoje.

Podemos evitar cair na armadilha da “birra” e deixar de colocar de lado os sentimentos de nossas crianças usando essa palavra. Podemos escolher mudar nossa perspectiva e ver as pessoas inteiras, com seus próprios sentimentos e necessidades dinâmicas, não menos válidas que as de um adulto.

Não há tal coisa como “birras”, apenas pessoas dignas de serem entendidas.

* Texto de Sara, de Happiness is Here

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