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Por que o tédio é bom para seu filho?

por que o tedio e bom para seu filho

“Mamãe, que faço agora?” Essa expressão te faz sentir um aperto, não é? A maioria de nós nos sentimos responsáveis quando escutamos estas palavras de nossos filhos e queremos solucionar seu “problema” imediatamente. Respondemos a seu tédio oferecendo-lhes entretenimentos tecnológicos ou atividade estruturadas. Mas isso, na realidade, é contraproducente. As crianças precisam tropeçar-se, e se comprometer com a crua matéria da qual está feita a vida: o tempo não estruturado.

Por que o tempo não estruturado é tão importante para as crianças?

O tempo não estruturado dá às crianças a oportunidade de explorar seu mundo interno e externo, o qual é o começo da criatividade. Esta é a maneira pela qual aprendem a se comprometer com eles mesmos e com o entorno, a imaginar, inventar e criar.

O tempo não estruturado também desafia as crianças a explorar suas próprias paixões. Se os mantemos ocupados com aulas e atividades estruturadas, ou se “enchem” seu tempo com entretenimentos de tela, nunca aprenderão a responder os sinais de seu próprio coração, que poderia leva-los a estudar as imperfeições da calçada, a construir um forte no jardim de trás, a modelar um monstro de argila, a escrever um conto ou uma canção ou a organizar as crianças do bairro para rodar um filme. Essas chamadas do nosso coração são as que nos dirigem às paixões que darão sentido às nossas vidas e estão a nossa disposição desde o começo de nossa infância, quando temos renda solta para explorar e perseguir aquilo aonde nosso interesse nos leve.

É também essencial para as crianças ter a experiência de decidir por si mesmos como usar os períodos de tempo não estruturados ou nunca aprenderão a maneja-los. Um de nossos maiores desafios como adultos, ou inclusive como adolescentes, é aprender a manejar bem nosso tempo.

Como Nancy H. Blakey disse “preveja o tempo gasto em televisão e atividades organizadas e deixe-lhes, em troca, gasta-lo em apelar para sua imaginação. Se uma coisa não pode ser imaginada primeiro (um bolo, uma relação, a cura para a AIDS…), não poderá existir. A vida está unida ao que podemos imaginar. Não posso semear a imaginação em meus filhos. mas, entretanto, posso provê-los de um entorno onde sua criatividade não signifique outro desastre que limpar, mas sim a evidência de uma luta de sucesso contra o tédio. É possível que o tédio nos entregue a melhor parte de nós mesmos, a que deseja o risco, a iluminação e a beleza indescritível. Se não ficamos sentados quietos o tempo suficiente, podemos ouvir a chamada escondida detrás do tédio. Com prática, poderemos ter a imaginação suficiente para sair do vazio e contestar.”

Por que o “não sei o que fazer” ou “estou entediado” se transforma em um freio constante para tantas crianças?

Para a maioria das crianças, se lhes damos tempo não estruturado e depois de alguma pequena queixa, aproveitam a oportunidade e encontram algo interessante que fazer com ele. As crianças sempre são felizes ao máximo com brinquedos autodirigidos. Isso é assim porque brincar é seu “trabalho”. É como resolvem emoções e experiências vividas. Observe como brinca qualquer grupo de crianças (no exterior, onde não há possibilidade de telas). Entre eles se organizarão para uma atividade de qualquer tipo, a construção de um dique no arroio, qualquer jogo de emulação ou vendo quem salta mais longe.

Quando as crianças não são capazes de encontrar algo que fazer, usualmente, é porque:

  • Estão tão acostumados aos entretenimentos da tela que não tem prática em olhar dentro deles mesmos em busca de diretrizes.
  • Seu tempo é sempre tão estruturado que não estão acostumados a encontrar coisas divertidas que fazer em seu “tempo livre”.
  • Precisam de atenção dos pais. Todas as crianças precisam se encontrar com os pais, ao longo do dia, para “se recarregar”.

Infelizmente, nossa sociedade está criando toda uma geração viciada nas telas. Isso é devido a que a eletrônica (iPads, telefones, computadores, videogames…) está desenhada para produzir pequenos prêmios em forma de dopamina em nossos cérebros, enquanto interagimos com eles. Essa é uma sensação tão agradável que, em comparação, outras empalidecem.

Mas as crianças precisam de todo tipo de experiências: desde construir com blocos (habilidades motoras, habilidades perceptivas), relacionar-se com outras crianças (aprendendo como conviver e compartilhar com os outros) até atividades criativas (transformando-se em “fazedor”, não em um observador passivo). As crianças também necessitam estar fisicamente ativos ou não podem se concentrar para aprender. É por isso que é preciso limitar o tempo diante da tela.

Quando as crianças dizem que estão entediadas, como nós (os pais) deveríamos responder?

Primeiro, deixe o que está fazendo e centre-se, de verdade, em seu filho durante cinco minutos. Se utiliza este tempo para conectar, conversar e fazer mimos, seu filho, provavelmente, conseguirá a “carga” necessária e se irá por seu caminho com muita rapidez.

Se não se solta do seu lado e você precisa voltar ao trabalho depois de uns minutos de autêntica conexão, tenha em consideração que talvez precise de um pouco mais tempo contigo. A maioria das ocasiões em que as crianças se mostram “reclamonas” e incapazes de se concentrar se deve a que precisam de mais tempo de conexão profunda conosco. Ofereça-lhe envolver no que você está fazendo ou faça um descanso no trabalho para fazer algo juntos.

Uma vez esteja seguro de que seu filho tem seu “tanque de amor” completamente cheio, pode voltar à pergunta “o que fazer?”. Para então, provavelmente ele já tenha algumas ideias de coisas que gostaria de fazer. Se não, diga-lhe que imagine como aproveitar o tempo é seu trabalho, mas que você gostaria de ajuda-lo com uma nuvem de ideias sobre possíveis atividades.

O que ocorre quando as crianças precisam de ajuda para conseguir uma atividade que quebre o seu tédio? Como ajudar enquanto você segue tornando-os responsáveis de continuar ocupados/comprometidos com seu tempo livre?

A maior parte do tempo, deixando as crianças com seus próprios recursos acabam encontrando algo interessante, mas, às vezes, realmente precisam de nossa ajuda, especialmente se, logo, tem mais tempo em suas mãos do que de costume, ou se você limitou a televisão e a eletrônica pela primeira vez. (Assim que as crianças se acostumam a essas limitações, tornam-se especialistas em se entreter a si mesmos e se tornam mais criativos na hora de brincar).

Inclusive, se tem que ajudar seu filho a pensar em alguma coisa que fazer, de-lhe uma responsabilidade, criando o Pote do tédio, cheio de ideias escritas em pedaços de papel. Quando ele lhe disser que está entediado, terá que pegar três papeizinhos do pote e escolher uma das atividades. Aqui você tem alguns exemplos de ideias que poderiam estar no pote contra o tédio:

  • Escrever uma carta a alguém
  • Correr dando voltas no jardim três vezes
  • Dançar ou cantar uma música
  • Escrever em um papel 10 coisas que gosta dos membros da família
  • Dar banho no mascote da família
  • Buscar formas nas nuvens
  • Contar quantas vezes pode acertar na cesta de basquete
  • Fazer um desenho
  • Lavar o carro
  • Planejar um caça ao tesouro com pistas
  • Montar em bicicleta
  • Fazer uma paisagem em uma caixa de papelão
  • Escrever no diário
  • Fazer papel de presente caseiro
  • Organizar seu quarto
  • Escrever um conto
  • Criar uma obra de teatro com fantasias
  • Recortar fotos de revistas e fazer um collage
  • Surpreender a mamãe fazendo a comida
  • Fazer um zoológico com bichos de pelúcia
  • Fazer e decorar um dromedário, marcando as datas importantes
  • Colocar sucos e frutas cortadinhas em moldes de fazer gelo e fazer cubinhos de frutas
  • Criar um jornal familiar
  • Fazer uma sobremesa
  • Começar uma coleção (folhas, pedras, botões…)
  • Fazer um varal de fotos no seu quarto usando corda de varal e pregadores
  • Inventar uma atuação de circo
  • Fazer de seu quarto uma selva
  • Fazer um circuito de obstáculos
  • Fazer uma toalha de jogos (só tem que plastifica-lo)
  • Escrever um poema
  • Decorar alguma camiseta velha com botões legais
  • Começar um club infantil
  • Usar tubos velhos de papelão e caixas para fazer um labirinto fantástico
  • Fazer arte aproveitando bijuterias e joias antigas
  • Ler um livro
  • Fazer uma guerra de bolas de água (no exterior)
  • Memorizar um poema e recita-los com seus pais
  • Fazer um barquinho com uma garrafa de plástico e palitos gelados (usar fita adesiva para colar)
  • Desenhar uma ilha deserta e todas as coisas que levaria para lá
  • Tapar os olhos de seu irmão ou sua irmã e leva-lo(a) para dar uma volta pela casa e/ou jardim e, logo, mudar os papeis
  • Brincar com algum jogo de mesa
  • Criar seu próprio jogo de mesa
  • Tentar pintar um desenho com seu pé
  • Pintar na calçada com giz
  • Brincar de pular corda
  • Brincar com bolinha de sabão
  • Limpar o jardim
  • Limpar o espelho com uma esponja
  • Fazer um livro de piadas
  • Construir um forte com almofadas e/ou travesseiros e lençóis
  • Fazer bonecos com meias velhas e botões
  • Fazer uma lista de coisas divertidas que faria com um adulto.

Se, realmente, parece que não encontra nada que fazer, é o uso de aparelhos eletrônicos e televisão uma solução aceitável?

O problema de usar a televisão ou os jogos eletrônicos para aliviar o tédio é que é uma das soluções que o coloca em um buraco mais profundo. Existem estudos que mostram que as crianças que brincam habitualmente com videogames se sentem entediados com mais frequência do que outras crianças. Inclusive, depois de eliminar o hábito, pode ser que passem meses antes de que encontrem outras atividades que as apaixonem. Mas, não se renda! Você está fazendo um enorme favor à sua criatividade.

Se seu filho sabe ler, nunca há nada que fazer. Há um mundo inteiro de livros esperando-o. Certamente, você fazer uma visita semanal programada à biblioteca para encontrar esses livros. E terá que “viciar” seu filho à leitura começando a ler com ele. Escolha um livro que possa ler, mas que, talvez, não escolhesse por si mesmo. Um livro simples por capítulos em vez de um livro de desenhos, por exemplo. Leiam juntos até que tenha que responder a uma chamada de telefone ou tenha que começar a preparar a janta, mas, ao menos, um quarto do livro para que seu filho fique interessado. Então, diga-lhe que é o momento de continuar lendo sozinho. É sua escolha. Quer seguir lendo o livro que estamos lendo ou prefere ler outra coisa? A maioria das crianças pegará o livro e o terminará por si memo. (E, se não o faz, terá que escolher um livro de um nível um pouco inferior da próxima vez). Continue escolhendo, cada vez mais, livros maiores, ligeiramente mais difíceis.

Se seu filho sabe ler mas já esteve todo o dia lendo, precisa de um descanso. Você passou meia hora com ele e não pode passar mais tempo. Não há companheiros de brincadeira disponíveis e, além disso, não encontra nada que lhe interesse no pote do tédio. Precisa de um projeto especial com o qual entusiasmar-se. É o momento de tirar algo que tenha estado guardando. Em meu caso eram palitos de dentes, nuvens e guloseimas com as quais se podiam construir maravilhosas esculturas e que, certamente, tinham o atrativo especial de que, algumas encontravam seu caminho em pequenas bocas que não estavam acostumadas a comer muito açúcar. Talvez você não escolheria isso mesmo, mas para todas as crianças existe algo que encontrarão fascinante durante meia hora e que poderia ter preparado para situações de emergência.

Se seu filho não sabe ler ainda, mas você está disponível, há milhares de coisas maravilhosas que você pode fazer com ele. É possível que justo quando esteja chorando lhe dê um branco. Por isso é boa ideia que tenha uma lista feita de antemão. Recomento a você jogos que estejam desenhados para aproxima-lo de seu filho porque esses preencherão suas necessidades, logo será mais fácil encontrar alguma outra coisa para fazer. (Também ajudam vocês a aprofundarem na relação, o que faz as crianças serem mais cooperativas e faz a ambos mais felizes).

Portanto, esses momentos em que não há “nada” que fazer se dão, basicamente, quando seu filho ainda não sabe ler o suficientemente bem como para estar entretido uma hora e você está ocupada. Se pode incluir seu filho em uma atividade, o problema está resolvido. As crianças menores adoram limpar as janelas, preparar a janta, dobrar a roupa, etc. Se não pode implica-las diretamente (por exemplo, porque está mexendo a comida no fogo ou cortando cebola), coloque-as em uma mesa de seu tamanho na cozinha, de-lhes uma faca sem corte pequena e algo de fruta. Deixe-lhes fazer uma salada de frutas para a sobremesa. Não terá visto jamais uma criança tão orgulhosa. Ou deixe-lhes limpar com água a varanda enquanto você passa aspirador dentro de casa. Ou que limpem o armário onde estão as vasilhas e panelas.

Mas, agora, imaginemos que você está fazendo algo que, realmente, como dando de mamar ao bebê para que durma e precisa que o outro filho esteja ocupado e tranquilo. Isso é, certamente, um desafio. As crianças em idade pré-escolar, geralmente, estarão encantados de se entreter uma hora inteira com areia e água (coloque, no banheiro, uma banheira de bebê com água, cubinhos, brinquedos para escorrer água, ou uma piscina pequena de plástico com areia).

Mas o problema principal com as crianças pequenas é que precisam de supervisão. Nesse caso, quando não puder supervisionar, é tão terrível para uma criança de dois ou três anos sentar-se durante meia hora diante de uma tela? Certamente que não. Escolha uma gravação que tenha uma duração limitada para que haja um final natural e, assim, sejam evitadas brigas quando a apague. Além disso, de passagem, evite que veja publicidade. Dê à criança algo para esperar fazer depois com você, como passar um tempo especial juntos assim que o bebê estiver dormido. E assegure-se de apagar a tela quando já estiver disponível em vez de aproveitar para terminar “só uma coisinha mais” no computador.

* Texto de Laura Markham, psicóloga clínica e mãe de duas filhas.

Disciplina Positiva

Através da Disciplina Positiva aprendemos a centrar-nos em potenciar habilidades em nossos filhos para que possam ser capazes de solucionar problemas por eles mesmos. Também reconhecemos que castigos físicos e psicológicos não são recursos que favoreçam a criar crianças com autonomia, responsáveis e independentes. Saiba mais:

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