Treinando a criatividade infantil com os minimundos e peças soltas

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Os minimundos são uma proposta de jogo livre para crianças baseado em recriar momentos da vida cotidiana ou habitats reais, mas em pequena escala. Essa é uma maneira de treinar a criatividade infantil a partir do desenvolvimento do jogo simbólico. A partir de materiais disponíveis em casa (as peças soltas), a criança cria pequenos mundos à sua maneira.

Certamente, a ideia não é nova, porque crianças já brincam com minimundos através de jogos como LEGO ou Playmobil. Entretanto, são dirigidos. Os cenários são pré-estabelecidos. A criança brinca, imaginando e criando narrativas, mas não participa do processo de criação desse mundo. E é justamente nesse ponto que está a originalidade da proposta dos minimundos.

A criança é o agente do processo de criação desde o minuto zero. A partir de uma temática pensada por ele, ou sugerida por um adulto, debe buscar, em casa, objetos soltos que possam ajudar a construir um minimundo. Dessa forma, treinamos a criatividade infantil de forma lúdica e educativa, favorecendo o jogo livre da criança no eco sistema criado por ele.

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Para que faixa etária são recomendados os minimundos?

Dos 0 aos 7 anos, a criança está em constante processo de exploração do meio. Quanto mais os deixemos brincar livremente, mais desenvolverão sua capacidade criativa. Os minimundos estão aptos para crianças a partir dos 18 meses, embora melhor aproveitarão as crianças com mais de 2 anos e meio.

Isso porque o objetivo dos minimundos é a criança jogar com autonomia, tomar suas próprias decisões. Nós adultos devemos ser meros acompanhantes desse processo. Um bebê de 18 meses pode entender muitas coisas, mas ainda não está na fase de organização dos objetos nos espaços (leia mais sobre fases do desenvolvimento infantil).

Ainda assim, bebês entre 18 meses e 2 anos e meio devem ser provocados a construir seus minimundos. Junto com minha pequena criamos o seu primeiro minimundo: a praia. Mais abaixo descrevo a experiência. Antes de fazê-lo, pretendo contar-lhes os benefícios de jogar com minimundos.

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Benefícios de jogar com minimundos e peças soltas para as crianças

O principal benefício de jogar com minimundos e peças soltas é, sem dúvidas, o treino da criatividade infantil. Desde o início a criança deve tomar decisões. Escolher os objetos que comporão o minimundo. Organizar os objetos no reduzido espaço. Dar a eles nova funcionalidade, se necessário. E criar histórias, explorando o entorno criado. Mas não é só isso.

Há uma série de benefícios para as crianças que descrevemos abaixo:

  • Imaginação: criação do entorno no minmundo e das relações entre as personagens.
  • Vocabulário e habilidades de comunicação: desde os primeiros sons dos animais ou carros, até mesmo diálogos completos, adequando o tom de voz à psicologia de cada personagem.
  • Desenvolvimento da coordenação motora fina.
  • Inteligência sensorial: o uso de diferentes materiais provoca, na criança, uma variedade de estímulos sensoriais.
  • Persistência: para criar entornos bonitos esteticamente e funcionais para o brincar livre.
  • Inteligência emocional: Ao criar histórias, aprende a administrar as vivências dos habitantes do entorno. À medida em que desenvolve sua personalidade, aprende a controlar as emoções.
  • Compreensão do mundo: ao reproduzir situações do cotidiano nos minimundos, aprende mais sobre o mundo e as distintas culturas.
  • Inteligência social: se o jogo envolve mais de um criador/jogador, aprendem juntos a relacionar-se socialmente. Juntos discutem o projeto, argumentam seus pontos de vistas e chegam a acordos depois de negociações sobre como brincar.
  • Independência no jogo: do início ao fim aprendem a inventar o entorno e suas histórias. Cria seus próprios recursos, encontrando tudo o que considerem necessários.
  • Solução de problemas: aprendem a resolver os conflitos que surgem no jogo.
  • Experimentação científica: através das relações de causa e efeito, tentam construir algo que se imaginam, mas nem sempre é possível.

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Que materiais são necessários para criar minimundos?

Os materiais podem ser os mais variados. Certamente todos estão em casa. Não há necessidade de comprar nada. Basta percorrer as caixas de brinquedo, os armários da cozinha ou do escritório. Seguramente a criança achará muitas coisas interessantes para criar um minimundo.

A base do jogo, onde será criado o minimundo, pode ser uma folha grande de papel, um tapete liso pequeno ou uma bandeja, como as que você usa para apresentar os materiais Montessori. O importante de limitar o espaço de criação é fomentar a concentração. A criança aprende que deve ser capaz de criar coisas maravilhosas a partir de certas limitações.

O primeiro minimundo de Laura foi com o tema praia, posto que está em uma fase de total paixão por animais, já foi várias vezes à praia e visitou algum que outro aquário. Como se trata de um bebê de 20 meses, o tema foi proposto por mim. Também selecionei, em casa, materiais que poderiam ser utilizados para criar o minimundo praia.

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Dentre os elementos estão:

Como apresentar o jogo às crianças?

Uma vez tinha todo o material, os organizei em uma bandeja. Dei à Laura uma bandeja vazia e outra com os elementos de jogo. Expliquei para ela que faríamos o minimundo praia. Cantei-lhe partes das canções do Mundo Bita, No fundo do mar e Chuá Tchibum. Como ela já conhece o clip das música, vi aí a oportunidade de chamar a seu imaginário o entorno da praia. Em seguida, lembrei de alguns dos momentos em que estivemos na praia com a família.

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Nisso, Laura já havia começado a explorar os elementos da bandeja. Lembrando que nossa filha tem 20 meses, dei o ponta pé inicial na criação do minimundo. Coloquei em um canto da bandeja um papel feltro na cor areia. A partir daí fui lhe fazendo perguntas para provocar sua curiosidade e, assim, facilitar que ela mesma fosse criando o seu pequeno mundo.

  • O que tem aqui na bandeja que tem a cor do mar? (Ela identificou o papel celofane azul e o espalhou pela bandeja.
  • Onde vive o tubarão? E o peixe? A tartaruga?
  • Onde podemos colocar as conchas?
  • Com as peças pretas que acha de fazermos um monte?
  • E as pedras, onde podemos colocá-las?

Então, ela mesma se deu conta de que na areia poderia colocar um de seus bonecos da casinha de bonecas. Perguntei-lhe que achava de colocá-lo sentado? Ela foi até a casinha de bonecas e pegou duas cadeiras e mais um bonequinho.

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Com as duas tampas de cortiça finalizamos o minimundo praia, montando uma mesa. E o cubo de gelo serviu para ser uma água de coco que ela, alegremente, deu a cada uma das personagens.

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Pronto o minimundo. Deixei passo à Laura para brincar livremente e passei ao plano de acompanhante. Apenas observava como jogava. Quando terminou, deixei a bandeja em um canto da sala para que pudesse explorar quando desejasse. Vi que brincou outras duas vezes por algum tempo.

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Para crianças a partir dos 2 anos e meio, devemos fomentar a sua autonomia para criar os minimundos por ela mesma, sem intervenção de um adulto.

Como treinar a criatividade das crianças com os minimundos e as peças soltas?

Alguma vez já falamos por aqui que a criança nasce criativa, no entanto, nós adultos tratamos de limitar tanto seus impulsos criativos que acabam por deixar de sê-lo com o tempo. Quantas vezes dizemos: “não rabisque a parede”, “não suba aí que vai cair”, “cuidado que vai se sujar”…

Podemos ajudar a criança a treinar a criatividade para que não a perca no decorrer do tempo. Os minimundos e as peças soltas são um recurso incrível para fomentar o processo criativo da criança.

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Como treinar essa criatividade?

  • Proponha um tema.
  • Fomente a busca pela informação.
  • Pensar a ideia concreta a se realizar.
  • Criar o minimundo.
  • Experimentar com os materiais.
  • Desfrutar do resultado brincando livremente com o minimundo criado.

Como trabalhar os minimundos na escola?

Os minimundos também podem ser trabalhados em casa. Podem se tornar um excelente projeto educativo, quando pensado, planejado e realizado corretamente. A partir da temática proposta para a construção do minimundo, é possível fomentar a busca pela informação e o aprendizado efetivo através do jogo educativo.

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Algumas ideias são:

  • Nominar animais e personagens que viverão no entorno. Definir a psicologia das personagens.
  • Investigar onde vivem e o que fazem no mundo real. Como são, suas características e necessidades.
  • Categorizar animais e personagens segundo seu habitat natural.
  • Avaliar a relação que tem entre eles e com outras pessoas.
  • Como se comunicam.
  • Características e particularidades do minimundo a ser criado.

Isso pode ser trabalhado previamente ou no decorrer do desenvolvimento do projeto educativo. Tenha em conta o grau de concentração das crianças. O aprendizado deve se dar de forma lúdica. O objetivo é a criação do minimundo e não um questionário assertivo sobre o entorno a ser criado. As provocações que se façam devem ter sempre o fim de despertar a curiosidade da criança e deve ser feito em tom de diálogo.

Os minimundos são de inspiração Reggio Emilia, Montessori ou Waldorf?

Na realidade, podemos dizer que os minimundos é um jogo livre que poderia ter sido inspirado em uma das três pedagogias: Reggio Emilia, Montessori ou Waldorf. No que diz respeito à Reggio Emilia, em aula se observa muito o jogo para desenhar os projetos que serão realizados durante o curso, tendo em conta o grupo específico de crianças, seus interesses e necessidades concretas. As crianças são convidadas a construir composições sobre o que querem. Tendo ao alcance peças soltas de diferentes origens (natureza, objetos do cotidiano, reciclados…) são capazes de criar pequenos mundos incríveis, cheios de criatividade e imaginação.

Por outro lado, nas escolas Waldorf também é comum a criação de cenários de jogo simbólico, com casinhas de elfos feitas de troncos, com mesas da estação e com tapetes de seda e feltro cheias de animais de madeira.

E, embora não seja esse um tema Montessori, perfeitamente pode se encaixar no método. Para construir minimundos Montessori, basta utilizar objetos reais na medida do possível e, se são brinquedos, que sejam realistas. Os entornos podem recriar habitats que exista e sirvam para aprender sobre os bosques ou o sistema solar, por exemplo.

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