Educação Emocional

Como falar sobre abuso sexual com crianças pequenas?

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Como falar sobre abuso sexual com crianças pequenas? Essa é uma dúvida que nós pais temos. Não queremos que nada disso passe a nossos filhos, mas tampouco sabemos como prevenir. Tendemos a pensar que a criança ainda nunca está preparada para entender questões relacionadas à sexualidade. E é um engano! O mais certo é que nós pais não estejamos preparados para lidar com o tema da sexualidade com nossos filhos e, por isso, não conseguimos oferecer-lhes as ferramentas necessárias para prevenir o abuso sexual.

Podemos começar a falar sobre sexualidade com nossas crianças desde muito pequenos. Um diálogo aberto e continuado permite que o tema seja abordado de forma adequada. Podemos começar a falar sobre sexualidade com a criança quando ainda é bebê. Calma, isso não significa que você dará super explicações, mas sim que, com seu exemplo, ajudará a criança a construir ferramentas necessárias para enfrentar um problema tão grave como é o abuso sexual. 

Como falar sobre abuso sexual com crianças pequenas?

Vamos destacar algumas práticas que podemos ter com nossas crianças em casa para que possamos ajudar na prevenção do abuso sexual. Os dois pilares para essa prevenção são a informação e a confiança na mãe, no pai e/ou cuidador.

Primeiramente, a criança deve estar bem informada. A frase chave daqui de casa é:

“Seu corpinho é só seu. Ninguém, além de você pode toca-lo além de você mesma”.  

Essa é uma informação poderosa que toda criança deve ter bem compreendida e integrada. E mais, não é tocar o corpo apenas em suas genitais. Mas em qualquer parte de seu corpo. Qualquer forma de agressão física não é aceitável. Nenhum amiguinho tem direito a bater nela, como ela também não tem direito a bater no amiguinho. Mamãe e papai não batem nela para corrigir qualquer conduta, como ela tampouco pode fazê-lo com o adulto. Se ela compreende o poder dessa informação, posteriormente, será capaz de estabelecer os limites possíveis: o toque de um abraço em um amiguinho, o toque de mãos de um adulto para ajudar a saltar um obstáculo no parquinho… É a partir de um conhecimento global que, em sequência, você consegue estabelecer os limites entre o aceitável e o não aceitável.

Em segundo lugar, a confiança é muito importante. A criança precisa confiar na mãe, no pai ou no cuidador. Se vive em uma família cujos pais nunca acreditam no que diz, dificilmente contará o que lhe está passando, especialmente se o agressor a ameaçar. Se vive em uma família cujos pais batem cada vez que faz algo errado, não confiará em contar nada a eles, pois a dor que já sente é muito forte para ainda levar outros golpes físicos. Quando ela confia, ela se abre pois sabe que o adulto é o seu porto. E esse vínculo de confiança se constrói no tempo, desde que o bebê está na barriga. É a partir de uma relação baseada no apego, no amor, no afeto e no respeito que a criança se sente protegida e segura.

Vamos expandir um pouco mais tudo isso? Deixo algumas colocações sobre como podemos prevenir o abuso sexual infantil.

Chame por seu nome real as genitais

É muito importante ensinar às nossas crianças os nomes de suas partes íntimas. É preciso que, desde cedo, chamem as genitais por seu nome correto. Pênis, vulva, vagina, peito, bumbum devem estar presentes no vocabulário da criança. 

Então está errado dizer perereca? Não necessariamente. No entanto, a criança precisa saber que seu nome real. Por quê? Porque dizer pinto (pênis) ou perereca (vulva) é uma forma de animalizar as partes íntimas, tornando-as algo mais próprio do mundo infantil. O melhor é dizer o nome real, não deixando margem a outras interpretações. 

Ninguém pode tocar suas partes íntimas e nenhuma outra parte do corpo sem sua permissão

Muito importante que a criança entenda que ninguém pode tocar suas partes íntimas. Ela deve entender que o corpinho é dela e ninguém pode toca-la sem seu próprio consentimento. 

Aqui podemos nos sentar no divã e passar horas conversando sobre o tema. É, minha gente, é necessidade de terapia que temos todos. Como explicar para uma criança que ninguém pode tocar seu corpo sem sua permissão se o adulto, ao se sentir irritado, bate na criança. Não acho que, independente de ser o pai ou a mãe, ela daria permissão para que batessem nela. 

Não sei se percebem que o buraco é mais profundo do que nossa vã filosofia poderia imaginar. Ninguém pode tocar suas partes íntimas mas pode tocar qualquer outra parte do corpo? Difícil para uma criança compreender, não é mesmo? Embora violência física e violência sexual sejam coisas, teoricamente, distintas, estão muito unidas. Muitas crianças vítimas de abuso sexual vivem situações de violência em casa: tapas, socos, palmadas… Acabam por normalizar a violência em suas vidas.

Não bata, eduque

No lugar de bater, converse. A criança precisa confiar em você. O vínculo entre pais e filhos deve ter como base a confiança. Se diante de qualquer conduta equivocada da criança, sua reação são gritos e palmadas, dificilmente essa criança confiará em você para lhe contar qualquer coisa que lhe aconteça. E, mais, você pode lhe dizer claramente que deve contar para a mamãe se alguém tocar suas partes íntimas que você vai ajudar. A dinâmica de gritos e palmadas, provavelmente, tão arraigada no lar, a impeça de contar com sua ajuda. 

O abuso sexual é, de por si, uma situação muito violenta. A criança entende que é uma conduta equivocada e não deseja contar a você por medo a que tenha que ouvir gritos ou levar palmadas. Ela sentirá que não será ouvida como gostaria, ainda que, na realidade, tudo acontecesse ao contrário. Sua sensação de vergonha ou de culpa pode ser ainda maior.

Não diga mentiras, fale sempre a verdade

Não diga mentiras à criança. Fale sempre a verdade. Seja sempre honesta com ela. As condutas inadequadas na infância podem ser corrigidas com o diálogo, o amor e o respeito. 

Lembre-se de que a criança não mente. Ela aprende a mentir observando como fazemos os adultos. Se você promete algo, cumpra. Se não pode cumprir, não prometa. Não crie falsas expectativas. Ser honesto e dizer a verdade sempre é uma forma de construir um porto seguro para a criança. 

Quando dizemos sempre a verdade, nossos filhos entendem que podem confiar em nós. Sabem que tem em nós um porto seguro. Não há necessidade de ocultar ou esconder o que ocorre, pois sabe que não será recriminado. E atenção! Você pode não estar de acordo com o que lhe conte, mas compreenda e explique seu ponto de vista de forma racional. A criança entenderá.

Segredos não existem

Não existem segredos bons e segredos maus. Se alguém pede para guardar um segredo ou contar algo que a incomode, deve contar a seus pais. A infância deveria estar livre dos segredos. Se você chama a criança para contar um segredo, ainda que lhe pareça bonito, está ensinando a esconder informação. E, se para que não conte a outra pessoa você a ameaça ou a chantageia, está ensinando que deve ser submissa. 

Um exemplo simples: você quer preparar uma surpresa para o Dia dos Pais. Que data maravilhosa! Vai comprar uma camisa de presente para o marido e diz para a criança: “Mas é segredo! O papai só pode saber amanhã. Não pode contar nada.” E, para piorar, como você é consciente de que criança não tem trava na língua, ainda emenda: “Ah, e se não contar nada, você também ganha um presente“. 

Está certo, você salva a surpresa, mas às custas de ensinar uma conduta equivocada à criança. Então, imagine em uma situação de abuso sexual, em que o abusador transforme o ato em um jogo, defina que é um segredo e ainda a chantageia com doces e balas para que não conte a ninguém. 

Visto desde essa perspectiva, temos muito que pensar sobre nossas próprias condutas, não é mesmo?!

Ensine a criança a dizer não

Repito nosso mantra em casa com Laura: “Seu corpinho é só seu. Ninguém, além de você pode toca-lo além de você mesma“.  A criança deve esta preparada para dizer não em qualquer momento. E como isso ocorre?! Quando primeiro não somos nós os primeiros a tocar seu corpo sem sua permissão. Vai fazer a higiene das partes íntimas, peça permissão. Mostre que você é o primeiro a respeitar seu corpo. 

Pois bem, aqui pode se estabelecer uma confusão. E se o abusador também pede permissão?! Bom, estou ensinando a meu filho que se pedir permissão e ela deixar pode. Pense bem. Há um limite claro: “Seu corpinho é só seu. Ninguém, além de você pode toca-lo além de você mesma”.

A questão do consentimento é uma forma de demonstrar à criança que você mãe, pai ou cuidador são respeitosos com seu corpo. Esse é o primeiro passo para que ela seja respeitosa com seu próprio corpo. Você também pode orienta-la sobre que tipos de toques são normais. Por exemplo, a ida ao pediatra para a revisão ou dar a mão a um adulto para atravessar a rua… 

Não obrigue a criança a dar beijos e abraços

Não obrigue a criança a dar beijos e abraços. Se o corpinho é dela, não devemos obriga-la a uma conduta que não deseja. Não há nenhum problema quando não quer beijar ou abraçar uma pessoa, seja ela conhecida ou não. Lembre-se de que é o seu compromisso social de agradar a todo mundo que se sente ferido. A criança está bem e contente com sua decisão simplesmente porque, naquele momento, não tem vontade de abraçar nem de beijar. Ao forçar, deixamos claro que ela deve se submeter às vontades do adulto sobre seu corpo. 

Aliás, estudos apontam que a maioria dos abusos se da por parte de algum familiar ou pessoa que faz parte do convívio familiar. Então, nada de “senta no colinho do tio, da beijinho, abracinho…”.

Nem todo mundo é bom

A ideia de que o mundo da criança é um faz-de-conta a afasta da realidade. Nem todos os adultos tem boas intenções. Logo, é preciso que a criança entenda que nem todos os adultos tem intenção de ajuda-la. Então, até certa idade, você deve estar sempre atenta ao que acontece ao redor de seu filho.

No ambiente em que você não controla, por exemplo, o tempo vivido na escola, a criança deve saber que se um adulto que ultrapassa os limites estabelecidos, ela deve contar aos pais o que aconteceu. Essa é uma forma de que ela sinta que está em um entorno seguro.

Não aceitar tudo o que lhe oferecem

Assim como não devemos obrigar a criança a beijar e abraçar, não devemos obriga-la a aceitar tudo o que lhe oferecem. Muitas vezes vemos como os pais forçam a criança a comer o que não querem só para agradar o avô ou a avó. Ou, ainda, a chupar uma bala porque o vizinho foi gentil de oferecer. 

Tenha em conta que devemos respeitar se a criança diz que não quer algo que lhe ofereçam. Ela está apenas sendo sincera e dizendo a verdade. Naquele momento não deseja. Quem se sente em apuro é você adulto que tem inculcada a ideia de que tem que sempre agradar ao outro para conviver em sociedade. 

Ensine a criança a confiar em si mesma

Deixei por último esta recomendação porque acredito que tudo o que vem antes, quando bem realizado, formam a base sólida para que a criança confie em si mesma. 

Quando ela isso ocorre, ela sente que pode dar passos por si mesma. Sente que não precisa de aprovação do adulto a todo momento. Logo, é capaz de buscar soluções quando algo a incomoda, a envergonha, a deixa confusa ou culpada. 

Demonstre-lhe o muito que a ama e que sempre acredita nela. Lembre-se de que as crianças não mentem.

Educação Emocional

Na seção Educação Emocional aprendemos como ajudar nossos filhos a reconhecer e identificar as emoções corretamente. A partir do desenvolvimento da inteligência emocional, a criança está preparada para vivenciar situações várias de uma maneira equilibrada. Além disso, há uma parte dedicada a sugerir atividades sobre as emoções para trabalhar com os pequenos em casa. Descubra mais:

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